“Complexidade marcará o futuro da agropecuária brasileira”, defende pesquisador da Embrapa

Avanços tecnológicos e apagão na mão de obra devem marcar a pecuária de corte nos próximos 20 anos Publicado em 1 dia atrás em 26 de julho de 2022 Área utilizada para pasto passou de 191,3 milhões de hectares em 1990 para 165,2 milhões de hectares em 2020, redução de 13,6% - Foto: Shutterstock Desempenhar uma atividade de produção agropecuária de forma sustentável é um desafio enorme para produtores rurais, especialmente enquanto ainda são sentidos os efeitos da pandemia e da guerra na economia mundial. No setor da pecuária de corte não é diferente.

Os desafios para produzir de forma sustentável, considerando o aspecto social, econômico e ambiental, são inúmeros. Pesquisador da Embrapa Gado de Corte e coordenador do CiCarne, Guilherme Malafaia: “A sustentabilidade vem permeando a história da pecuária de corte brasileira, diferentemente daquilo que alguns tentam nos pintar de uma realidade que não somos” – Foto: Arquivo pessoal O assunto foi debatido durante o 13ª Prosa de Pecuária, live realizada pelo Instituto Desenvolve Pecuária. A palestra “Sustentabilidade e os desafios futuros para a cadeia produtiva da carne bovina” foi apresentada pelo pesquisador e coordenador do Centro de Inteligência da Carne Bovina da Embrapa Gado de Corte, Guilherme Malafaia. Para ele, a complexidade marcará o futuro da agropecuária brasileira. Segundo o pesquisador, nas últimas quatro décadas a cadeia produtiva de carne bovina passou por uma modernização revolucionária, sustentada por avanços tecnológicos dos sistemas de produção e em sua organização. “Com claro reflexo na produtividade, na qualidade da carne e, consequentemente, no aumento da competitividade”, destaca. De acordo com ele, a sustentabilidade sempre esteve presente na pecuária de corte brasileira ao longo dos quarenta anos de sua trajetória. Entretanto, nos últimos anos o uso de tecnologia passou a ter um papel extremamente relevante para o setor reduzir as áreas de pastagem e mesmo assim aumentar a produtividade. “O emprego e a modernização tecnológica nos permitiu termos ganhos de produtividade com menor utilização de terras. Isso mostra a sustentabilidade ambiental que a pecuária de corte vem trilhando em seu caminho ao longo dos anos”, afirma Malafaia. Sustentabilidade social De acordo com dados da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), em 2020 o setor gerou 4,5 milhões de empregos diretos nos setores de produção, industrialização e distribuição. As ocupações representam R$ 65 bilhões em salários. Para Malafaia, esses números mostram o carácter de sustentabilidade social da cadeia produtiva de carne bovina. “Através da geração de emprego e renda para as famílias brasileiras”, completa. Sustentabilidade econômica O PIB da pecuária de corte cresceu 20,8% em 2020 em comparação ao ano anterior, totalizando R$ 747,05 bilhões, segundo a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) e a Apex Brasil. O número representa quase 10% de todo o PIB do país. “Mostrando que a pecuária de corte desenvolve sustentabilidade econômica”, afirma o pesquisador da Embrapa. Futuro De acordo com o pesquisador da Embrapa, a atual realidade do setor em função do aumento dos custos de produção, da escassez de mão-de-obra e das crescentes restrições socioambientais, induz o setor a novos desafios. “A pensar novos processos, métodos, sistemas, produtos e serviços que contribuam para a promoção da eficiência e competitividade da pecuária de corte brasileira”, destaca. Malafaia acredita que mesmo com um cenário negativo em alguns aspectos, o futuro da pecuária é favorável. O pesquisador menciona o estudo realizado pela Embrapa Gado de Corte, em conjunto com o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. A pesquisa traz dez megatendências para o setor para 2040. “Essas megatendências são um conjunto de vetores de transformação que são fortemente interligados e que têm o poder de transformar toda uma realidade”, menciona. Megatendências para 2040 As dez megatendências citadas no estudo estão relacionadas a avanços no campo da ciência e tecnologia para atingir rentabilidade com respeito ao bem-estar dos animais e de acordo às exigências do mercado consumidor. Biológicos à frente no manejo de baixos resíduos Os avanços biotecnológicos voltados à sanidade, necessidade de redução dos resíduos na carne e a dificuldade em se controlar de forma mais efetiva certas doenças tendem, segundo Malafaia, a diminuir a utilização de fármacos alopáticos e aumentar da produção de medicamentos biológicos. “A tendência é termos insumos cada vez mais ausentáveis e de base biológica”, explica. Biotecnologia transformando a pecuária e a carne A sanidade animal e o melhoramento genético serão fortemente impactados pelas biotecnologias. Conforme Malafaia, será possível prevenir e controlar doenças e parasitoses com melhores soluções de manejo. “A edição gênica possibilitará grandes avanços em termos de rusticidade, qualidade e desempenho dos animais”, menciona. Menos pasto, mais carne Segundo o estudo, os avanços tecnológicos e a integração lavoura e floreta mudarão o patamar tecnológico da pecuária de corte. Serão 36 milhões ou mais de hectares em ILPF paralelamente e uma forte redução nas áreas de pastagem e um crescimento no número total de cabeças, com sistemas muito mais produtivos. “Vamos continuar fazendo mais com menos. Utilizar menos área e produzir mais carne, gerando cada vez mais o efeito pouca terra”, ressalta. Lucro apenas com bem-estar animal Outra tendência relacionada no estudo é a produção com respeito ao bem-estar animal ao longo de toda a cadeia. Será a regra e nenhum elo poderá ficar de fora. “Em um mundo pós pandêmico, a preocupação com a sanidade animal será cada vez mais forte”, emenda Malafaia. Das propriedades, transporte e frigoríficos serão exigidos certificados de produção com bem-estar animal. Pecuária consolidada com grandes players A pesquisa menciona também as exigências produtivas em termos de quantidade, qualidade do produto final e os meios de produção provenientes de um consumidor diversificado e exigente. “As exigências de bioseguridade e escala farão com que a pecuária se consolide com grandes players, o conceito de mega fazendas será predominante para poder dar respostas aos desafios”, relata. Ainda, conforme o estudo, isso limitará a atuação do pecuarista extrativista. Frigorífico: Mais natural e com mais exigências de qualidade Para atender um consumidor que exigirá produtos mais naturais, com menor teor de aditivos, o estudo indica que haverá necessidade de aumentar as exigências na aquisição de matéria prima proveniente dos pecuaristas, com marcante demanda para o avanço na qualidade da carne. “As exigências quanto ao manejo sustentável, produtos biológicos e a implementação rigorosa do processo de bem-estar animal serão cada vez mais rigorosas”, menciona Malafaia. Carne com denominação de origem O estudo de CiCarne prevê também o fortalecimento da carne bovina como produto mais sofisticado, a exemplo de como ocorre com vinhos e queijos. A cadeia produtiva trabalhará fortemente em termos de diferenciação de cortes e processos produtivos em busca de geração de valor a seus produtos. “Teremos grandes oportunidades com agregação de valor em produtos através de certificações com denominação de origem”. Brasil, mega exportador de carne e genética Conforme o trabalho, o país se destacará na exportação de genética, de animais vivos para abate, de cortes de carne e de subprodutos, atingindo tanto mercados emergentes quanto os sofisticados. De acordo como Malafaia, o estudo prevê que os avanços oriundos da introdução de biotecnologias e o amplo esforço de toda a cadeia em termos de produção sustentável, bem-estar animal e qualidade de carne criarão a base para o crescimento. “O Brasil tem um arsenal genético de zebuínos e taurinos altamente superior e que pode ser amplamente exportado para outros países”, afirma Malafaia. Digital transformando toda a cadeia produtiva A penúltima tendência citada no estudo prevê que a maior transformação será no processo de distribuição, seja de insumos, gado ou da carne. Segundo o estudo, a propensão é que parte dos intermediários sejam excluídos do sistema, e a relevância da qualidade e sustentabilidade crescerão via interação digital com o consumidor final. “Principalmente através de embalagens inteligentes que contarão toda a história do produto, desde a cria, até a chegada do produto na mesa do consumidor”, menciona. Apagão de mão-de-obra A última tendência apontada pelo estudo do CiCarne é algo que já está acontecendo no campo, segundo Malafaia. Segundo ele, atualmente, 87% da população é urbana e a tendência deve se acentuar cada vez mais. Mas segundo Malafaia, o maior desafio do setor não será quantitativo, e sim qualitativo. “Os enormes avanços tecnológicos previstos para os próximos 20 anos demandarão uma mão-de-obra cada vez mais capacitada”, completa Malafaia. Cinco maiores problemas da humanidade nos próximos 50 anos O estudo sintetiza os múltiplos desafios do futuro em energia; água; alimento; ambiente e pobreza. Segundo Malafaia, todas as cadeias de produção precisarão estar altamente antenadas nestes cinco elementos para ter condições de consegui se manter. “Todos os mecanismos de produção terão que estar pautados nesses elementos”, afirma o pesquisador da Embrapa. A terceira onda Dentro do conceito relacionado aos cinco elementos que representarão os principais desafios das cadeias de produção para o futuro, ergue-se a terceira onda da pecuária da corte no Brasil, vista por Malafaia como uma atividade de ciclo mais curto, integrada com outras cadeias de produção, com processo de decisão mais minucioso, com equilíbrio de emissões e com menor pegada ambiental e hídrica. “A consequência disso tudo será um produto padronizado para atender mercados altamente exigentes para captarmos valor através disso”, sustenta Malafaia. Desenvolvimento com sustentabilidade O crescimento sustentável da pecuária de corte no Brasil prevê uma grande transformação em toda a cadeia produtiva com sistemas de integração Lavoura-Pecuária-Floresta. Conforme Malafaia, a complexidade marcará o futuro da agropecuária brasileira. “Teremos que aprender a gerenciar vários elementos dentro de uma mesma área, e isso se torna complexo”, ressalta. Segundo o pesquisador, a partir disso, será possível a busca por maior eficiência e agregação de valor aos nossos produtos. Isso será possível com tecnologia e programas de incentivo para se chegar a produtos que sejam mensuráveis, reportáveis e verificáveis, e com isso, conseguir certificações e capturar valor. “A complexidade na cadeia da pecuária de corte será cada vez mais intensa e vai exigir um preparo maior dos pecuaristas”, evidencia. Para ficar atualizado e por dentro de tudo que está acontecendo no setor de bovinocultura, commodities e maquinários agrícolas acesse gratuitamente a edição digital Bovinos, Grãos e Máquinas.

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